europaamerica - Associação Pensamentos ao Vento

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A realidade americana aqui relatada não difere muito  da realidade nacional, apesar de estarmos na Europa. Continuamos a ser  um pequeno país à parte no que à prevalência dos costumes morais diz
respeito.

Para lá do Grande Lago

Por  mais de 99% da existência humana conhecida, os nossos ancestrais  viveram em nudez
coletiva. Até o tear aparecer na Ásia, há cerca de 6.000 anos, o vestuário não era uma opção disponível em lugar algum do planeta, a não ser  que alguém estivesse numa de peles, má escolha em dias húmidos. Todas as  crianças cresciam a saber exatamente qual o aspeto dos outros da sua  espécie. Provavelmente o pudor não era um assunto escaldante e a noção  de que o corpo humano era obsceno nunca teria sido sequer imaginada. A  não ser que ensinassem o contrário, a aceitação do corpo era tão natural  como a vida e a autoaceitação. A nudez nem sempre foi tabu na Europa,  claro. Esses primeiros contribuidores para a Civilização Ocidental, a  Grécia Antiga, achavam o corpo humano nobre e artisticamente inspirador,  competiram nus durante séculos nas Olimpíadas e, por vezes, até as  guerras eram combatidas por guerreiros nus. Os  seus sucessores culturais, os Romanos, socializavam nus nos seus banhos  públicos e a nudez fazia parte das cerimónias e celebrações pagãs por  toda a Europa Pré-Cristã.

Embora  o Cristianismo Primitivo tenha inteligentemente adotado os festejos e  mitos pagãos para ganhar aceitação, renunciou às mais flexíveis atitudes  acerca da nudez, sexualidade e corpo humano. Acreditando fielmente  durante séculos que a Segunda Vinda de Jesus era iminente após a sua  crucificação, os líderes dos cristãos primitivos tenderam a ser bastante  céticos fechando as suas mentes duvidosas, rejeitando os seus corpos  pecaminosos e focando-se principalmente na sua imortalidade espiritual. A  “carne” era vista como uma tentação diabólica, especialmente se fosse  feminina. Apesar da falta de suporte doutrinal nos Evangelhos, esta  atitude negativa acerca do corpo manteve-se por mais de um milénio,  mesmo com os vários polimentos e avisos, depois de a Igreja ter sucedido  ao Império Romano como o principal pilar da Civilização Ocidental.  Ainda assim, o Protestantismo, que surgiu mais tarde, foi ainda mais  repressivo do que o Catolicismo no que ao corpo diz respeito. Algumas  das seitas religiosas mais radicais da Europa foram forçadas a emigrar  para a América, onde o seu legado perdura.

A  ultrapassada moda de roupa de praia “Tabu do Corpo” atingiu o seu pico  de absurdo e influência na Era Vitoriana quando até as pernas nuas de um  piano eram consideradas atrevidas pela “sociedade politicamente  correta”. Nos finais do século XIX o colonialismo europeu estava a  desabar por falta de novos objetivos de saque e a maioria da nudez pagã  ainda sobrevivente foi vestida de acordo com padrões mais modernos.  Finalmente as pessoas civilizadas pareciam estar a salvo do presumido  perigo moral de ver o corpo humano nu, incluindo mesmo o próprio corpo.  Retirar a roupa no escuro era a norma, o banho não era especialmente  encorajado, e o sexo, também praticado no escuro e nunca discutido,  servia apenas para procriação e não para recreação.

No  início do século XX, a nudez social iniciou o seu regresso à Europa  desde que Roma fora saqueada. Um movimento internacional pela aceitação  do corpo emergiu para propor a nudez na natureza como um antídoto  humanizador para os extremos repressivos da puritana Era Vitoriana e da  industrialização urbana. Conhecida como “Cultura do Corpo Livre” na  Alemanha, “Naturismo” na maioria da Europa e eventualmente “Nudismo”  quando alcançou a costa americana na terceira década, a filosofia  idealista do movimento secular incluía a nudez social não-sexual;  exercício ao ar livre; uma dieta saudável, não alcoólica, normalmente  vegetariana; uma ligação espiritual com a Natureza.
Interrompido  apenas por guerras, o movimento de aceitação do corpo rapidamente se  espalhou, especialmente na Europa onde, eventualmente, se desenvolveu do  utópico até ao mais recreativo ao mesmo tempo que a nudez social se  tornava mais popular. Num documentário da BBC nos anos ’80 estimava-se  que 50.000.000 de europeus apreciassem férias naturistas. O  desenvolvimento da aceitação do corpo no Novo Mundo tem andado atrasado  em relação à Europa. Clubes nudistas privados, parques de campismo e  outros tipos de parques emergiram nos anos ’30 enfrentado o escarnio  ridículo dos media, a censura e a Grande Depressão. Nem a 2ª Guerra  Mundial, nem os retrógrados anos ’50 deram ao movimento americano muito  incentivo depois do nada auspicioso início e o crescimento inicial era  glacial.

Depois de  finalmente conquistar o direito legal de publicar e distribuir fotos de  nudez inofensivas nos finais dos anos ’50, o mercado das publicações  nudistas, nos anos ’60, foi inundado por uma explosão de pornografia com  imagens bastante eróticas e não relacionadas. O fracasso comercial das  suas revistas deixou os clubes nudistas, na sua maioria com uma  orientação de cariz familiar, com poucos canais de divulgação para além  do “boca-a-boca” devido a uma recorrente filiação secreta, e mesmo esses  geravam poucos recursos para o seu desenvolvimento e crescimento. A  nudez na praia, normalmente em locais remotos e de difícil acesso,  cresceu em popularidade no início dos anos ’60. Black’s Beach, uma meca  de roupa opcional, protegida por falésias, para os amantes nudistas da  areia e do surf perto de San Diego, atraiu mais de 10.000 veraneantes  nas décadas seguintes.

Enquanto  apenas umas quantas praias de roupa opcional dispersas são legalmente  reconhecidas nos Estados Unidos, guias da Sociedade Naturista, e outras,  enumeram centenas de praias e áreas de lazer públicas onde a nudez  social é tacitamente aceite por uma questão de já ser habitual. O  inquérito anual do Bay Guardian sobre praias nudistas normalmente  identifica cerca de uma centena desses locais apenas no norte da  Califórnia, talvez a região mais aberta ao corpo no Oeste. A Associação  Americana para a Nudez de Lazer (American Association for Nude  Recreation – AANR), a maior e mais antiga de várias organizações  defensoras da nudez, congrega mais de 200 clubes americanos e canadianos  com um total de cerca de 50.000 membros. O mais bem-sucedido dos clubes  da AANR, que atrai cerca de 5.000 membros, localiza-se no centro da  Flórida.

A fundação,  em meados dos anos ’80, da Associação Comercial para a Nudez de Lazer  (Trade Association for Nude Recreation – TANR) refletiu o surgimento da  nudez recreativa como um nicho a explorar na esfera da indústria  hoteleira. Apesar de ainda poder faltar profundidade, oferece uma  surpreendente amplitude. Os que procuram umas férias relaxantes ou  apenas um escape podem escolher entre destinos como resorts de serviço  completo, clubes, cruzeiros, parques de campismo, termas, spas e  estalagens pela América do Norte e Caraíbas. Diversos resorts  jamaicanos, como por exemplo o Clube Med, estabeleceram secções de praia  para nudistas e não-nudistas. A adoção de praias de roupa opcional  ajudou a relançar economicamente uma faixa de hotéis de praia  recentemente renovados em Miami. Nichos de empreendimentos de nudez  recreativa estão a surgir em áreas turísticas em Tampa, Flórida e Palm  Springs, Califórnia.

Os  sinais de que os americanos estão finalmente a começar a ficar mais  recetivos à nudez social são encorajadores. Os temas constrangedores  tendem a ser mais acerca da imagem do corpo e menos acerca das  proibições culturais remanescentes. Se a Europa é a percursora, a  aceitação do corpo e a nudez recreativa ainda têm um longo caminho a  percorrer para crescer nos Estados Unidos.

Traduzido e adaptado por José Luís Vieira a partir da publicação de The Activist em 03/11/2015 em:
https://naturallynaturist.wordpress.com/2015/11/03/over-the-big-pond/
em  07/04/2016
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