iniciarnatur - Associação Pensamentos ao Vento

Go to content

Main menu:

A Associação Pensamentos ao Vento disponibiliza no seu sítio de internet diversos textos, das mais variadas origens, sobre o que fazer para se tornar naturista, qual a melhor forma de o fazer, experiências e também algumas razões para se tornar naturista. Estes textos lançam, de alguma forma, um pouco mais de luz sobre esta forma de viver mas não nos dizem onde deve começar o Naturismo.

No caso de um adulto, desde criança ensinado a que existem certas partes do nosso corpo que não devem andar expostas aos elementos e muito menos aos olhares dos outros, o Naturismo
passa primeiro pela vontade de verificar por si próprio o que é isto. Se é só tirar a roupa.
Tirar a roupa e sentir a liberdade será então o primeiro passo. Ou não?

Correndo o risco de alguns interpretarem isto como “uma gincana oratória e escrita sem respeito e tolerância pelos demais, utilizando a deturpação de conceitos e definições em conjunto com o ataque pessoal e institucional, gritando mais alto para se sentirem ouvidos, parafraseando autores e escritos de outros a seu belo prazer de forma a justificar a sua argumentação pessoal” (Paulo Garcia, Vice-presidente FPN, 2014)[1], aqui deixo as minhas considerações, até porque num estado democrático as opiniões são livres.

Numa tradução fiel da designação da Federação Naturista Internacional, patente na sua página de internet, Naturismo é um modo de vida em harmonia com a Natureza, expressa através da nudez social, ligada ao autorrespeito, à tolerância de diferentes pontos de vista em conjunto com o respeito pelo meio ambiente.

De acordo com isto podemos considerar 5 diretrizes:
  • Modo de vida em harmonia com a Natureza
  • Nudez social
  • Autorrespeito
  • Tolerância de diferentes pontos de vista
  • Respeito pelo meio ambiente

Comecemos por aquilo que aparentemente é mais fácil: A Nudez social. Socializar sem roupas. Simples. Mas para isto devemos considerar um outro ponto: Autorrespeito. Respeitar-se a si próprio. A pessoa para se despir socialmente, e porque o contrário é o mais comum na sociedade, deve ver (respeitar) o seu corpo como algo normal, sem partes mais ou menos dignas, independentemente da cor e formato do todo ou das partes. O corpo é apenas o exterior de cada um de nós e, como tal, é único, assim como é única a sua essência, a sua personalidade, e todo este conjunto faz de cada um de nós o ser único que somos individualmente.
Socializar sem roupas, colocar-se perante o(s) outro(s) sem a barreira da roupa e sem as barreiras sociais, é colocar-se no mesmo nível do(s) outro(s) respeitando-o(s) em todas as suas particularidades físicas, emocionais e sociais independentemente dos seus, também únicos, pontos de vista, respeitando assim o(s) outro(s). Deste modo, a questão da tolerância de diferentes pontos de vista fica também resolvida. Mas isto não quer dizer “ouvir e calar” porque assim faltamos ao respeito a nós próprios. Quer dizer dialogar, quer dizer compreender, ou apenas tolerar, o ponto de vista do(s) outro(s), independentemente de com ele(s) concordar ou não.

Antes de entrar nos próximos pontos, importa aqui referir que esta parte da tolerância de diferentes pontos de vista é, segundo o meu próprio ponto de vista, uma das questões mais fraturantes no meio naturista.
Isto porque pura e simplesmente as pessoas, na sua maioria, não toleram os diferentes pontos de vista, tal como muito bem referido na citação acima transcrita. Mas uma coisa é ouvir e calar, faltando ao respeito a si próprio, às próprias ideias e ideais, deixando-se submeter à vontade dos outros, e outra é criticar pontos de vista por não concordar com eles e contrapor as suas próprias ideias e ideais, sem faltar ao respeito a quem as proferiu. Isto será diálogo e é precisamente do diálogo que surge o consenso e a melhoria das ideias e ideais. É normal que quem não queira ter em consideração as ideias e ideais do(s) outro(s) veja isto como uma afronta a si próprio, mas sendo normal, não será de naturista, pois isto é não tolerar diferentes pontos de vista.
Nem sempre fui naturista, algo mudou. Curiosamente a única coisa que mudou foi a interpretação do conceito roupa. De imprescindível passou a necessária em certas convenções sociais e quando as condições climatéricas e de segurança assim o impõem. Porque mudou? Porque ouço, dialogo, interpreto e reformulo. Ouvi diversos pontos de vista, dialoguei para perceber, interpretei para assimilar e reformulei para mudar o meu ponto de vista. Sempre assim fiz e sempre assim farei. A minha verdade de hoje poderá não ser a verdade de amanhã e enquanto eu tiver este ponto de vista terei sempre espaço para aprender.

Voltando às diretrizes, e porque de respeito se falava, respeito pelo meio ambiente.
Ambiente, do latim ambiens/ambientis, com o sentido de envolver algo, é o conjunto das substâncias, circunstâncias ou condições em que existe determinado objeto ou em que ocorre determinada ação. Este termo tem significados especializados em diferentes contextos:
Meio ambiente - Em biologia, inclui tudo o que afeta diretamente o metabolismo ou o comportamento de um ser vivo ou de uma espécie, incluindo a luz, o ar, a água, o solo ou os outros seres vivos que com ele coabitam.
Creio que o conceito de respeito pelo meio ambiente está relacionado com esta questão biológica onde as nossas ações afetam cada um de nós individualmente e enquanto espécie, bem como todos os outros seres vivos, também individualmente e enquanto espécie, e ainda o ecossistema global. A outra conceção de ambiente remete para o Ambiente Social que na literatura, história e sociologia, significa a cultura em que um indivíduo vive ou onde foi educado e o conjunto das pessoas e instituições com quem ele interage, quer individualmente, quer como grupo e esta parte entra no autorrespeito e tolerância dos vários pontos de vista, anteriormente expostos.
Natureza provém da palavra latina natura que significa qualidade essencial, disposição inata, o curso das coisas e o próprio universo e refere-se aos fenómenos do mundo físico, à forma inata como crescem plantas e animais, e também à vida em geral, e normalmente não engloba os objetos construídos pelo homem.
Assim podemos considerar Natureza todo o universo com todo o seu conteúdo.
Deste modo, em harmonia com a Natureza e respeito pelo meio ambiente significará a integração do Ser Humano de uma forma harmoniosa, sem prejudicar o frágil equilíbrio natural, respeitando assim todas as espécies e os seus ecossistemas particulares, que em última análise interagem no todo.

E aqui surge então outra questão fraturante no meio dos naturistas. Comer um animal será desrespeitá-lo?
Na realidade considero esta questão ainda mais profunda do que ao início possa parecer. Podemos começar pelo facto de existirem cerca de sete mil milhões de seres humanos. De acordo com alguns escritos, o ideal para a raça humana seria um número a rondar apenas os quinhentos milhões. 1/14 do que existe atualmente. Ora com tanto humano, torna-se complicado haver espaço para o equilíbrio dos ecossistemas das outras espécies, e isso é notório com o desaparecimento de vários ecossistemas, bem como das espécies que os habitam. Aqui sim, a proliferação da espécie humana está a faltar ao respeito ao meio ambiente e a não se integrar de forma harmoniosa na Natureza.
Voltando à alimentação, faltamos efetivamente ao respeito quando fabricamos animais para nosso consumo mantendo-os em condições bem diferentes daquelas dos seus ecossistemas. Mas… e os animais de companhia? Não os afastamos nós do seu ecossistema e dos da sua própria espécie? E todo o negócio que se gerou ao redor dos animais de companhia? Não são animais domésticos, são animais domesticados pelo ser humano, animais que acabam por aproveitar a nossa companhia para satisfazer as suas próprias necessidades. Mas o mais grave é que alguns desses animais já não sabem viver fora da responsabilidade do seu “dono”. E domesticar animais não será uma forma de escravizar esses animais? E pessoas que tratam os animais como pessoas? Não é sobrevalorizar os animais ou desconsiderar o Ser Humano, é apenas não tratar os animais de acordo com a sua essência. Para “ter” um animal deveria ser obrigatório possuir as condições espaciais e morais para o tratar de acordo com a sua singularidade.
Mas será que faltamos ao respeito do meio ambiente e deixamos de viver em harmonia com a Natureza quando nos alimentamos de animais? Só podemos considerar esta questão porque somos racionais e também por isso não podemos deixar de a considerar. Um tigre não se questiona sobre alimentar-se de um humano ou de qualquer outro animal, faz parte da sua natureza. Os golfinhos são tidos como animais inteligentes e comem peixe, faz parte da sua natureza. Os chimpanzés caçam outros animais, faz parte da sua natureza. Alimentamo-nos de animais porque é mais prático/económico (em termos do nosso organismo) deixar o animal processar os vegetais e comer-lhe a carne do que comer diretamente os vegetais e porque também faz parte da nossa natureza, mas como animais racionais que somos podemos optar por não o fazer. Generalizando, consumimos cerca de 30% de proteína animal (sem incluir laticínios) quando, segundo a Roda dos Alimentos, o consumo de carne, pescado e ovos deveria ser apenas de 5%. Consumimos cerca de 5 vezes mais do que o necessário. Deveríamos fazer apenas 2 a 4 refeições principais com proteína animal por semana mas, na realidade, todas elas contêm proteína animal.
Viver em harmonia com a Natureza e respeitar o meio ambiente, do meu ponto de vista, é deixar de cometer estes excessos, sem entrar em radicalismos, pois os radicalismos levam à perda da razão. É respeitar os animais deixando-os viver junto dos seus, nos seus próprios ecossistemas. É ser predador e também presa, estar integrado no ecossistema global, compreender e não destruir.

Assim, e sempre do meu ponto de vista, o Naturismo deve ser um modo de vida em harmonia com a Natureza através da integração equilibrada do Ser Humano no próprio ecossistema, expressa através da nudez social porque a nudez é a condição natural do Ser Humano e porque esta condição nos igualiza, ligada ao autorrespeito pois é necessário que nos respeitemos a nós próprios para também, assim, respeitarmos o(s) outro(s) o que leva à tolerância de diferentes pontos de vista e em conjunto com o respeito pelo meio ambiente porque é onde nos inserimos e porque devemos respeitar o local onde estamos, pois sem local para viver extinguir-nos-emos.

Por tudo isto, o Naturismo começa em cada um de nós, na nossa visão singular de tudo o que nos rodeia e não é apenas tirar a roupa. É tentar seguir também as outras quatro diretrizes. Tentar porque na nossa atual realidade não será fácil fazê-lo. Tirar a roupa até será o mais simples e por isso temos por aí muitos naturistas que apenas tiram a roupa, sem querer saber das ideias e ideais dos outros, faltando também ao respeito a si próprios e ao meio ambiente por terem as prioridades trocadas, ligando mais ao ter do que ao ser, complicando em vez de simplificar, encontrando mais problemas do que soluções, radicalizando posições e sem se integrarem harmoniosamente na Natureza, sem sequer tentarem reduzir ao máximo a sua pegada.

Eu, pelo menos, tento.

[1] Qualquer texto produzido poderá ser considerado dentro desta descrição, incluindo o texto do próprio autor que o escreveu.

Artigo de opinião por José Luís Vieira:
05/03/2015
Back to content | Back to main menu