Naturismo e Teorias Morais - Associação Pensamentos ao Vento

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Uma das principais preocupações das pessoas que se interessam por naturismo, e outras formas de nudez social, diz respeito às outras pessoas cuja amizade valorizam e ao facto de estas poderem reagir negativamente se descobrirem do seu interesse pela nudez social.
Existem evidências científicas de que este medo possa ser real e aplica-se a outras situações e não está apenas relacionado com a nudez.

Todas as sociedades têm uma panóplia de regras sobre o que é e o que não é considerado “adequado” ou “moral”. As sociedades justificam estas regras em teorias de moralidade,
normalmente implícitas, assumidas e não analisadas. Infelizmente, nas sociedades mais contemporâneas, a nudez social, fora de circunstâncias muito limitadas, é tida como violação dessas regras.

Para as pessoas que se despem, ou pretendem despir, socialmente, é necessário questionar não apenas as restrições da sociedade, como também os princípios “morais” que pretendem justificar essas restrições.

Assim, a primeira coisa que necessitamos fazer é examinar filosoficamente as teorias de “moralidade” de modo a compreender de que forma nos afetam. A moralidade, o que é e de onde vem, tem sido uma das principais preocupações da filosofia por mais de dois milénios. Centenas de milhões de palavras foram escritas sobre filosofia moral, de tal modo que apenas um relato simplista e superficial possa ser oferecido aqui. Mas também, quem tem tempo para ler e digerir um espesso livro sobre o assunto?

Considere a seguinte situação, se é que ainda não se deparou com ela anteriormente: Encontra-se numa ponte sobre uma linha de comboio. Apercebe-se de que numa curva um carro com cinco pessoas empanou no meio da linha. As pessoas não conseguem ver a aproximação de um comboio e o maquinista também não os consegue ver pelo que, se nada for feito, as pessoas morrem. Ao seu lado está um grande e corpulento homem e você apercebe-se de que se o atirar da ponte para a linha o comboio vai parar antes de matar as cinco pessoas, ainda que o homem morra. O que deve fazer?

Sim, esta é uma situação altamente improvável e irrealista, mas ilustra o ponto. Uma teoria da moralidade diz que causar deliberadamente a morte a uma pessoa inocente é sempre errada. Mas uma outra teoria diz que é sempre melhor se uma pessoa inocente morrer em vez de cinco.

A questão de qual a “melhor” teoria não será abordada. A intenção é apenas mostrar que existe aqui uma questão e que ela é muito relevante para a nudez social. Por um lado, muitas pessoas (provavelmente uma maioria na maior parte das sociedades) acreditam que a nudez social relacionando pessoas sem qualquer ligação (especialmente se houver crianças envolvidas) é quase sempre errada ou, no mínimo, questionável. Porquê? Apenas porque é contra as regras da sociedade ou do “senso comum”. Mas, por outro lado, os naturistas e outros adeptos da nudez social pensam que a nudez é normal, possui muitos benefícios psicológicos e de saúde e é inofensiva para qualquer um dentro das condições razoáveis do senso-comum.

Então qual é analogia com o anterior exemplo do comboio? É que uma atitude “moral” está fundamentada numa regra fixa, quase inviolável. Enquanto a outra está fundamentada numa avaliação realista das consequências relativas de uma escolha face à outra.

Os filósofos que se debruçam profissionalmente sobre moral e ética possuem termos para essas duas atitudes. A primeira é chamada “deontológica” (não me perguntem porquê) e a segunda é (mais compreensivamente) “consequencialista”.

Deveria ser suficientemente claro que essa moralidade consequencialista provavelmente aprova a nudez social, uma vez que os que se despem socialmente encontram um valor significativo na nudez, dado que, objetivamente, existe realmente pouco dano na nudez. Feitas as contas, as consequências são maioritariamente positivas. Por outro lado, a moralidade deontológica provavelmente desaprova a nudez social uma vez que esta desafia as regras tradicionais e os tabus da maioria das sociedades contemporâneas.

Mas aqui está o cerne da questão: em muitas, se não na maioria, das sociedades contemporâneas, a maior parte das pessoas parece inclinar-se para a visão deontológica da moralidade em detrimento da visão consequencialista. Por outras palavras, as regras inflexíveis acerca do “certo” e “errado” tendem a prevalecer sobre os julgamentos baseados na avaliação racional das consequências. Isto é afirmado, ou pelo menos assumido, neste recente estudo que descreve a pesquisa científica e se debruça um pouco sobre a questão do comboio discutida anteriormente.

Presume-se, desta suposição, que uma pessoa será mais popular com outros, tenha mais amigos e que mais pessoas confiem nela se as suas atitudes morais estiverem de acordo com essa maioria. E particularmente, se for um nudista social, os seus argumentos consequencialistas terão dificuldade em convencer a maioria deontológica. Não é uma conclusão satisfatória de alcançar, mas também não é aconselhável ignorá-la por completo.

Porque deve levar isto a sério? Bom, um estudo cita pesquisa científica na área social que sugere que existe alguma validade na conclusão do parágrafo anterior. Nas palavras do estudo:
De acordo com uma nova pesquisa com mais de 2.400 participantes, levada a cabo por David Pizarro, da Universidade de Cornell, a forma como você responde ao “problema do trólei” pode ter um grande impacto na quantidade de pessoas que confiam em si.
Claro, isto não é afirmar que essa moralidade deontológica é a teoria moral “certa” ou “errada”. Apenas parece ser a mais popular. Um pouco mais à frente, veremos como os nudistas sociais podem querer lidar com esta questão. Mas primeiro vamos ver porque esta situação pode ter surgido.

A religião é o elefante na sala. Claramente, as religiões abraâmicas, predominantes no ocidente e médio-oriente, promovem uma forma muito deontológica da teoria moral. Estas religiões estão cheias de regras e regulamentos e mandamentos sobre a forma como as pessoas se “devem” comportar, com poucas, senão nenhumas, exceções permitidas, independentemente daquilo que uma análise racional da situação poderia concluir.

No entanto, nem todas as religiões são similares às abraâmicas neste aspeto. O budismo, por exemplo, tende a inclinar-se para o outro lado. Este resumo da moralidade do budismo contem a seguinte citação de um especialista no assunto:
“Não existem absolutos morais no budismo e é reconhecido que a tomada de decisão ética envolve uma complexa rede de causas e condições. O budismo engloba um alargado espectro de crenças e práticas e as escrituras canónicas deixam espaço para uma série de interpretações. Tudo isto está baseado numa teoria de intencionalidade e os indivíduos são encorajados a analisar cuidadosamente as questões para eles próprios. … Ao fazerem escolhas morais, os indivíduos são encorajados a examinar a própria motivação (seja aversão, apego, ignorância, sabedoria ou compaixão) e a pesarem as consequências das suas próprias ações à luz dos ensinamentos de Buda.”

Repare, em especial, no enfâse do encorajamento “para analisarem cuidadosamente as questões” e, especialmente, para “pesarem as consequências” das próprias ações. Outra religião, Wicca, a recuperação moderna de uma antiga tradição espiritual, coloca o assunto de uma forma mais sucinta no poema Wiccan Rede (Conselho Wicca): “Sem ninguém prejudicar faça o que quiser”. Pode ser até demasiado sucinto, uma vez que existem situações (como a do exemplo do comboio) que acabam por prejudicar alguém independentemente do seja feito. Mas o ponto é suficientemente claro: A consideração racional sobre o modo que um comportamento prejudica, ou não, outros ou o próprio é a melhor forma de avaliar a moralidade do comportamento. (É uma questão diferente de decidir sobre quais os critérios a usar para decidir se algum comportamento é ou não "prejudicial", ou para comparar a quantidade de dano das escolhas alternativas do comportamento.)

Agora, é verdade que nas sociedades budistas contemporâneas, e talvez até entre wiccanos, existem muitas atitudes morais deontológicas por descobrir. Em particular, a nudez social é talvez tão tabu nas sociedades budistas como em qualquer outro lado (os wiccanos, por outro lado, parecem ser mais recetivos à nudez). Mas isto talvez seja assim porque existem razões para os tabus (incluindo o tabu da nudez) que são ainda mais fundamentais do que os ensinamentos religiosos. Já lá chegaremos.

Vale a pena reforçar, no entanto, que autoridades respeitáveis, mesmo nas religiões abraâmicas (para não falar de outros teólogos modernos), por vezes desviam-se do pensamento deontológico estrito. Por exemplo, Agostinho de Hipona (Santo Agostinho), um antigo teólogo cristão, é normalmente considerado como um moralista inflexível. No entanto escreveu:
Uma vez para todos, então, um pequeno preceito é-te dado: Amor, e o que vais fazer: quer mantenhas a paz, através do amor manténs a paz; quer grites, através do amor gritas; quer corrijas, através do amor corriges; quer desesperes, através do amor desesperas: deixa a raiz do amor ficar no interior, desta raiz não brotará nada que não seja bom.

Então, se a perspetiva deontológica não é apenas inerente à religião, de onde vem ela? Como pode isto ser explicado? Aqui fica uma explicação possível: A maioria das pessoas quer que as outras pessoas, especialmente aquelas com quem mais lidam, sejam previsíveis. E, de facto, a previsibilidade é uma qualidade muito importante para a existência contínua de uma sociedade estável com um grau razoavelmente elevado de coesão social e cooperação. Se não se puder prever de forma fiável o comportamento de alguém com quem se mantém relações, como se poderá confiar nessa pessoa? E se não se pode confiar nela, como se poderá ter um relacionamento produtivo e satisfatório com ela, quer se trate de uma relação pessoal, social, de negócios, ou o que quer que seja?

Alguns teóricos sociais chegam a formular a hipótese de que a natureza humana tem sido moldada para preferir a previsibilidade e a confiabilidade nos outros, uma vez que estes são elementos essenciais numa sociedade estável e confiável e que assim terá maior probabilidade de se manter.

Claramente, uma das formas da sociedade inculcar comportamentos previsíveis e confiáveis nos seus membros é promover a adesão a uma moralidade deontológica, com muitas regras e tabus, numa larga maioria da população. Historicamente, parece que este foi o caminho que a maioria das sociedades tomou, porque é o mais fácil de implementar.

A moralidade consequencialista fica em desvantagem neste aspeto por diversas razões. Por um lado, requer que as pessoas pensem e raciocinem acerca das consequências das suas ações, e isto requer tempo e esforço. Seguir simplesmente as regras e evitar as coisas que sejam tabu é mais fácil e mais rápido do que pensar. Mas, para além disso, claro, a habilidade para raciocinar logicamente não chega facilmente a muitas pessoas, talvez por não ser tão necessário para a sobrevivência como aprender certas regras do “senso comum”. Isto pode incluir coisas como evitar animais perigosos (leões, cobras), não comer plantas ou frutas desconhecidas ou com mau cheiro, não insultar ou ameaçar o chefe da tribo, não provocar lutas com alguém mais forte ou mais capaz, e por aí a fora. Talvez seja mais seguro na longa caminhada aprender as “regras do jogo” em vez de tentar raciocinar sobre as consequências de qualquer ação que possa tomar.

Trazendo a discussão de volta ao tema da nudez social, é provável que as pessoas nas sociedades contemporâneas se sintam muito desconfortáveis pela simples razão de ela ser um tabu social. Outras pessoas tendem a considerar alguém que quebra um tabu como imprevisível e não confiável. E uma pessoa aprende relativamente cedo que tal perceção de si mesmo coloca-o em séria desvantagem social. E o tabu não precisa de envolver algo tão dramático como andar por aí despido.

Especialmente quando a regra ou tabu envolve algo tão trivial como o tipo de vestuário que usa (muito menos dramático que a escolha de não usar qualquer vestuário), então, falhar na adesão das expectativas pode ser um grande problema, como usar a “coisa errada” para ir trabalhar ou num encontro, por exemplo. É bastante provável que as expectativas arbitrárias e caprichosas sobre o que é “ vestuário adequado” em muitos postos de trabalho existem precisamente para eliminar os funcionários que possam estar inclinados para ignorar outras expectativas também. E, de uma forma geral, as pessoas certamente julgarão outros com base na escolha do estilo de vestuário, independentemente de a objetividade disso ser irrelevante. Até diferenças triviais como esta podem marcar outra pessoa como “alguém diferente de nós”, ou “um membro de uma tribo diferente”.

À luz de toda esta discussão, que tipo de estratégias funcionarão melhor para os devotos da nudez social que pretendem defender e promover o seu estilo de vida? Existem muitos fatores diferentes a considerar na avaliação das várias formas pensadas para discutir a favor da nudez social. Portanto, uma análise minuciosa pode levar algum tempo.

Mas aqui ficam apenas alguns pensamentos para iniciar a tarefa. Vamos assumir que vivemos numa sociedade na qual a maioria das pessoas se inclina para a teoria deontológica, e não para a consequencialista, da moralidade.

A primeira coisa que surge é que a apresentação de argumentos acerca dos benefícios da nudez social e a ausência de prejuízos por ela causados pode ser vantajoso, mas provavelmente não será a melhor abordagem para começar. Isto porque as discussões nesta linha são sobre as consequências do comportamento, não sobre a adesão às regras.

Qual a alternativa? Deveria ser um argumento que evidenciasse regras ou princípios já amplamente aceites pela sociedade. Por exemplo: o direito de um indivíduo, ou de um grupo de indivíduos, em escolher para si um seu estilo de vida que tem pouco ou nenhum impacto nos outros. O direito das pessoas à “vida, liberdade e procura da felicidade”. Por outras palavras, as pessoas na nossa sociedade valorizam o direito de ser deixado em paz e, deste modo, é uma regra que este direito deveria ser respeitado. A violação desta regra é (ou deveria ser) tabu. Deveríamos argumentar que não é socialmente aceitável desaprovar e criticar as inofensivas escolhas pessoais do estilo de vida dos outros. “Não julgueis, para que não sejais julgados.” Mateus 7:1

Traduzido e adaptado por José Luís Vieira a partir de:
https://naturistphilosopher.wordpress.com/2016/04/24/naturism-and-moral-theories/
em 14/02/2017
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