Porqueestoudespir - Associação Pensamentos ao Vento

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Quando me propus a criar a RF, enchi cadernos cheios de ideias para marca, propósito, declarações de missão e conteúdo. Eu sabia que queria ajudar as mulheres a se sentirem mais confortáveis e enaltecidas nos seus corpos, e eu sabia que o fitness seria o meu veículo para ajudar a conseguir isso. No entanto, fitness não é a única maneira de se sentir enaltecida e hoje eu quero falar sobre a profunda qualidade enaltecedora da... nudez.

Eu cresci a acreditar na santidade da biologia. Para mim, parecia que algumas coisas eram mais "naturais" e, portanto, bom e merecias ser homenageadas. Comida verdadeira em vez de
alimentos processados, por exemplo. Passar tempo na natureza. A não utilização de toneladas de produtos, ou possuir toneladas de material. Andar de pés descalços, estar nua.

Sempre achei que seria normal estar nua. Desde criança que queria ficar sempre nua e a minha mãe superestrela acreditava em honrar a minha autonomia. Isso levou a que inúmeras vezes eu conseguisse estar nua quando objetivamente NÃO era apropriado. O que me sabia tão bem sobre estar nua era, na falta de uma frase melhor, a justiça metafísica. Parecia natural, como se estivesse a honrar a minha mais profunda e mais primitiva sensação de pertença à Terra. Muito antes do meu vocabulário adotar palavras "espirituais", estar nua era como se estivesse em Casa.

Afastei-me de muito da minha fé orientadora na "naturalidade" à medida que fui crescendo, principalmente por conveniência e por viver em Nova Iorque. O uso de sapatos é normal agora, eu prefiro estar limpa, e certamente uso muitos produtos não tão naturais. Mas eu sou mais feliz quando honro e persigo esse sentimento de justiça metafísica, eu decidi finalmente enfrentar o elefante nu no armário.

Não é tarefa fácil sentir-se bem num mundo em que o corpo é vergonhoso, faz de nós sem-vergonha e envergonha todos fazendo-nos sentir profunda e intrinsecamente errados. Mas eu sempre tive sentimentos muito fortes sobre a nudez natural, da vida real. Acho que é uma farsa épica a nossa cultura não a apoiar. Há algo de intrinsecamente errado comigo sobre a roupa ser o padrão. Eu gosto de roupas, não me interpretem mal. Eu gosto de estilo, gosto de estar quente e de modo algum eu sentaria o meu traseiro nu, digamos, num assento do metro de Nova Iorque. Mas também acho que uma esmagadora maioria das nossas questões culturais com a vergonha do corpo e a sua imagem distorcida remonta até o quão desconfortável estamos com a verdadeira e natural nudez.

Em muitas outras culturas, cresce-se a ver corpos nus ao nosso redor. Uma menina que cresça na Europa ou na América Latina frequentemente vê todas as mulheres da família nuas e, em lugares como balneários e ginásios, a nudez do mesmo sexo é comum. Mas não para nós. Em vez de ver a realidade, o nascimento de uma criança e os corpos das nossas tias e mães, irmãs e amigas desfrutando da vida, nós crescemos a ver apenas os altos, pensados, bronzeados e digitalmente trabalhados corpos dos modelos Victoria Secret. Em vez de ver que as mamas, barrigas e coxas existem em todos os tipos de maravilhosas formas e tamanhos, vemos apenas corpos que foram cirúrgica e digitalmente alterados para terem todos mais ou menos a mesma aparência: empertigados, simétricos, fartas mamas, estômagos lisos e suavemente tonificados, longas pernas magras.

Está comprovado que mesmo numa breve exposição a um tipo ou tamanho do corpo faz com que o observador prefira imediatamente esse tipo de corpo. Significado: nós preferimos o tipo de corpo que vemos com mais frequência e na nossa cultura somos constantemente inundados com um determinado tipo de corpo feminino. A maioria das mulheres que não possuem tal tamanho e forma de corpo sente-se tão indigna de mostrar os seus corpos em público que os cobrem, tanto quanto possível, diminuindo ainda mais a nossa exposição à diversidade corporal. A falta de diversidade de corpo da nossa cultura é muito, muito prejudicial para a nossa psique.

No ensino secundário, apesar de ter crescido num lar que considerava o corpo e o sexo positivos, eu estava tão inundada com a ansiedade sobre como "errado" era o meu corpo natural, que eu era completamente incapaz de relaxar. Havia tanto sobre mim que eu precisava de esconder e de que me devia distanciar. Foi uma tarefa a tempo inteiro; tinha de me sentar e ficar de tal maneira que os meus membros não amolecessem e parecessem gordos, eu tinha que encolher a barriga arduamente e tinha que manter o queixo para a frente para não parecer que tinha queixo duplo. Sozinha em casa, eu tirava pelos com a pinça, rapava-os, fazia flexões, aplicava sprays de bronzear e aprendi como aplicar maquiagem para disfarçar todas as minhas falhas. Aprendi que só havia uma forma aceitável para uma mulher se mostrar e, de muitas maneiras (apesar da minha interminável cruzada de amar a si mesmo), ainda estou a desaprendê-lo.

Além de não serem diversificadas e serem irrealistas e falsas, as imagens dos corpos das mulheres a que estamos expostos são também sempre “naturalmente sexualizadas”. Vemos celebridades da lista sensual classe A ficarem nuas em cenas de sexo, dançarinas sensuais a abanar as ancas em vídeos de rap, publicidade que leva a expressão "sexo vende" cada vez mais à letra e as mulheres na pornografia. Quase sempre vemos os corpos das mulheres expostos e em poses para excitar e fixar o olhar masculino; se prestar atenção principais aos meios de comunicação, torna-se evidente que os corpos das mulheres são objetos sexuais para consumo público. Se uma mulher não se elevar até aos nossos padrões de sensualidade (por exemplo, alguns políticos totalmente vestidos que eu posso pensar), as pessoas sentem-se tão enganadas no seu direito coletivo de serem excitadas, que a mulher é agredida com o julgamento, vergonha, especulação sobre a sua frigidez e observações acerca do seu peso.

Muito raramente se vê uma mulher nua que não esteja a pousar ou a ser objetivada e sexualizada de alguma forma. Quando foi a última vez que você viu uma mulher nua apenas relaxando, tal como… aspirando ou jardinando; não sendo um objeto sexual de alguma forma? Uma mulher estar nua apenas para si mesma, em vez de desempenhar uma atuação de sexualidade, é difícil de encontrar. Eu diria que Lena Dunham é o mais próximo que temos, e realmente ela faz as pessoas se sentirem desconfortáveis com sua orgulhosa nudez não sexual.

A nossa falta de nudez real e não sexual faz-nos sentir “menos do que”. As mulheres tornaram-se obcecadas com "corrigir" as infinitas formas erradas dos seus rostos e corpos, e estamos constantemente conscientes do desempenho sexual que é esperado de nós. Quando falhamos em alguma das situações acima (e estamos constantemente a sentir como se estivéssemos a falhar), vem a vergonha.

Já viu alguma criança ter vergonha do seu corpo? Não, é impossível. É mais parecido com OLHA A MINHA BARRIGA HAHAHAHAHA! As pessoas asfixiam o seu pequeno corpo em amor, e ela sabe no seu pequeno coração que não há absolutamente nada de errado com ela. O sentimento de errado, vergonha, só chega mais tarde, quando aprende o suficiente para perceber que existem de facto, centenas, se não milhares, de coisas erradas com ela, incluindo o facto de que ela deve, perante as pessoas, ser sexy. Cada um de nós nasce com um sentido inato de pertença e retidão na nossa forma física; é nosso direito de nascença. Essa sensação, no entanto, é-nos arrancada e pode desaparecer durante anos, ou décadas, ou mesmo para toda a vida, se deixarmos.

Neste momento, eu estou a recuperar o meu próprio sentido de retidão e de estar nua. No secundário eu costumava dizer que, se alguma vez me casasse, ia ter um casamento nudista. Eu sempre me quis juntar a uma colónia nudista, acho que a liberdade lá vivida será espetacular. Mas agora acho que talvez a minha obsessão com a nudez vai servir outro propósito: trazer mais consciência do amor e aceitação do corpo ao mundo.

O meu desejo inato de estar nua e livre em público pode ter estado a queimar durante muito tempo, mas ainda é aterrorizante. Sei que algumas pessoas não vão entender, nem aprovar. Sei que provavelmente vou perder seguidores por isso. Afinal de contas, as únicas pessoas que se despem em público voluntariamente ou estão "a pôr-se a jeito", ou a marcar uma posição. Acho que me enquadro no segundo campo, mas gostava de não ter de marcar tal posição. Desejava que estar nua na internet não implicasse ter de dar explicações nem gerasse discussões, mas é aí que estamos agora. Estou simplesmente a dizer: não há nada a esconder aqui. Os nossos corpos nus não deveriam aterrorizar as pessoas.

Num rápido aparte, eu vou permanecendo dentro das regras da legalidade e da media social ao cobrir as minhas partes ditas íntimas; da mesma forma que quero ”libertar os mamilos”, não estou disposta a arriscar perder nenhuma das minhas contas. Uso filtros nas fotos, porque as faz parecer mais "artísticas" e menos "eróticas." E estou em poses de ioga, porque acho que demonstra melhor o direito do meu corpo enquanto uma força vital. Sem dúvida que haverá mais de onde isso veio, com o passar do tempo.

Além disso, estou consciente de que muitas pessoas vão olhar para as fotos e dizer que eu tenho o privilégio da beleza: isto porque o meu corpo se enquadra nos padrões da sociedade de forma ou beleza, que tenho "permissão" para estar nua. Mas por favor compreendam, não é nada disso. Eu ainda estou com medo, assim como estou quase a clicar em "publicar", que não me entenda e que me vá julgar como "não suficientemente boa." Tenho medo que me elimine por não ser "suficientemente real" e, acima de tudo, tenho medo que ignore tudo o que eu disse e acabe por sexualizá-lo.

Mas, felizmente, estes medos desvanecem-se em comparação com a minha confiança de que isto é importante: que será gentil, que irá ouvir, irá discutir e irá partilhar. É apenas um corpo nu e estou a partilhá-lo consigo por amor.

Espero que através da partilha, hoje se sinta inspirado a deixar cair algumas das camadas atrás das quais esconde o seu verdadeiro Eu. Espero que, expondo o meu coração e o meu corpo abertamente, sem vergonha, se inicie mais discussões sobre porque todos nós sentimos a necessidade de esconder. Porque não há nada de errado consigo que precise de ser reparado ou escondido. Os nossos corpos nus têm tudo fundamentalmente, inerentemente e eternamente correto, e eu vos desafio a parar de fugir deles.

Dispa-se mais

Jessi Kneeland

Traduzido e adaptado por José Luís Vieira a partir de:
http://jessikneeland.com/why-im-getting-naked-on-the-internet/
em 11/10/2015
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